Terça-feira, 29 de Abril de 2003
PUBLICIDADE GRATUITA: BD FÓRUM
PUBLICIDADE GRATUITA: O BD FÓRUM é um evento que pretende celebrar um género - a Banda Desenhada - de forma diferente de todos os que têm sido organizados até hoje em Portugal. Contará para isso com uma componente comercial forte, de onde se destaca a presença de uma extensa lista de autores, de apostas editoriais traduzidas em variadíssimos lançamentos, e uma promoção apostada em conseguir garantir uma forte afluência de público. Sobretudo, de público predisposto a tomar contacto com o que a BD tem de melhor: os livros.São muitos os autores convidados para a primeira edição do BD FÓRUM. O número de presenças confirmadas garante já que o evento contará com a maior reunião de sempre de autores estrangeiros de BD em Portugal. A lista de convidados é uma verdadeira constelação de estrelas, oriundos de vários países e consagrados em diversos estilos, nalguns casos, inclusive, em outras áreas (cinema, televisão, publicidade, literatura, ilustração, animação, etc.). Destacam-se também alguns dos mais promissores autores de uma nova geração e alguns dos mais prestigiados autores nacionais. A lista completa de confirmações, até ao momento, é a seguinte: Denis Bajram, Alessandro Barbucci & Barbara Canepa (criadores de "Witch", o sucesso mais recente da Disney Publishing), Miguel Castillo, Amanda Conner, Elias, Carlos Ezquerra, Civiello, José Carlos Fernandes, Massimiliano Frezzato, Neil Gaiman (considerado um dos três maiores argumentistas mundiais de BD e vencedor de vários prémios literários), Alexa Gajic, Fernando Gonsales, Jorge Gonzalez, Valerie Mangin, Ralph Meyer, Carlos Pacheco, Jimmy Palmiotti, Luis Royo (um dos melhores ilustradores da actualidade, com milhões de livros vendidos em todo o mundo), David Soares, e Alberto Varanda (o autor português, radicado em França, de maior prestígio internacional). De destacar ainda que todos os autores têm obra editada (ou tê-lo-ão durante o evento) em Portugal. INFORMAÇÕES ADICIONAIS- A entrada é gratuita.- Todos os livros disponíveis no BD FÓRUM - incluindo os lançamentos - terão descontos sobre o P.V.P. LOCAL E HORÁRIOFórum Telecom, Picoas, LisboaDia 1 de Maio 13h00 - 24h00Dias 2 e 3 de Maio 10h00 - 24h00Dia 4 de Maio 10h00 - 20h00- Site: BDforumLisboa


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O BD FÓRUM é um evento que pretende celebrar um género - a Banda Desenhada - de forma diferente de todos os que têm sido organizados até hoje em Portugal. Contará para isso com uma componente comercial forte, de onde se destaca a presença de uma extensa lista de autores, de apostas editoriais traduzidas em variadíssimos lançamentos, e uma promoção apostada em conseguir garantir uma forte afluência de público. Sobretudo, de público predisposto a tomar contacto com o que a BD tem de melhor: os livros.

São muitos os autores convidados para a primeira edição do BD FÓRUM. O número de presenças confirmadas garante já que o evento contará com a maior reunião de sempre de autores estrangeiros de BD em Portugal. A lista de convidados é uma verdadeira constelação de estrelas, oriundos de vários países e consagrados em diversos estilos, nalguns casos, inclusive, em outras áreas (cinema, televisão, publicidade, literatura, ilustração, animação, etc.). Destacam-se também alguns dos mais promissores autores de uma nova geração e alguns dos mais prestigiados autores nacionais. A lista completa de confirmações, até ao momento, é a seguinte: Denis Bajram, Alessandro Barbucci & Barbara Canepa (criadores de "Witch", o sucesso mais recente da Disney Publishing), Miguel Castillo, Amanda Conner, Elias, Carlos Ezquerra, Civiello, José Carlos Fernandes, Massimiliano Frezzato, Neil Gaiman (considerado um dos três maiores argumentistas mundiais de BD e vencedor de vários prémios literários), Alexa Gajic, Fernando Gonsales, Jorge Gonzalez, Valerie Mangin, Ralph Meyer, Carlos Pacheco, Jimmy Palmiotti, Luis Royo (um dos melhores ilustradores da actualidade, com milhões de livros vendidos em todo o mundo), David Soares, e Alberto Varanda (o autor português, radicado em França, de maior prestígio internacional). De destacar ainda que todos os autores têm obra editada (ou tê-lo-ão durante o evento) em Portugal.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
- A entrada é gratuita.
- Todos os livros disponíveis no BD FÓRUM - incluindo os lançamentos - terão descontos sobre o P.V.P.

LOCAL E HORÁRIO
Fórum Telecom, Picoas, Lisboa
Dia 1 de Maio 13h00 - 24h00
Dias 2 e 3 de Maio 10h00 - 24h00
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Segunda-feira, 28 de Abril de 2003
O OITAVO POEMA DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" - ALBERTO CAEIRO
O OITAVO POEMA DE "O GUARDADOR DE REBANHOS", também conhecido como "Poema do Menino Jesus"Num meio-dia de fim de PrimaveraTive um sonho como uma fotografia.Vi Jesus Cristo descer à terra.Veio pela encosta de um monteTornado outra vez menino,A correr e a rolar-se pela ervaE a arrancar flores para as deitar foraE a rir de modo a ouvir-se de longe.Tinha fugido do céu.Era nosso demais para fingirDe segunda pessoa da Trindade.No céu tudo era falso, tudo em desacordoCom flores e árvores e pedras.No céu tinha que estar sempre sérioE de vez em quando de se tornar outra vez homemE subir para a cruz, e estar sempre a morrerCom uma coroa toda à roda de espinhosE os pés espetados por um prego com cabeça,E até com um trapo à roda da cinturaComo os pretos nas ilustrações.Nem sequer o deixavam ter pai e mãeComo as outras crianças.O seu pai era duas pessoas -Um velho chamado José, que era carpinteiro,E que não era pai dele;E o outro pai era uma pomba estúpida,A única pomba feia do mundoPorque nem era do mundo nem era pomba.E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.Não era mulher: era uma malaEm que ele tinha vindo do céu.E queriam que ele, que só nascera da mãe,E que nunca tivera pai para amar com respeito,Pregasse a bondade e a justiça!Um dia que Deus estava a dormirE o Espírito Santo andava a voar,Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruzE deixou-o pregado na cruz que há no céuE serve de modelo às outras.Depois fugiu para o SolE desceu no primeiro raio que apanhou.Hoje vive na minha aldeia comigo.É uma criança bonita de riso e natural.Limpa o nariz ao braço direito,Chapinha nas poças de água,Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.Atira pedras aos burros,Rouba a fruta dos pomaresE foge a chorar e a gritar dos cães.E, porque sabe que elas não gostamE que toda a gente acha graça,Corre atrás das raparigasQue vão em ranchos pelas estradasCom as bilhas às cabeçasE levanta-lhes as saias.A mim ensinou-me tudo.Ensinou-me a olhar para as coisas.Aponta-me todas as coisas que há nas flores.Mostra-me como as pedras são engraçadasQuando a gente as tem na mão E olha devagar para elas.Diz-me muito mal de Deus.Diz que ele é um velho estúpido e doente,Sempre a escarrar para o chãoE a dizer indecências.A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.E o Espírito Santo coça-se com o bicoE empoleira-se nas cadeiras e suja-as.Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.Diz-me que Deus não percebe nadaDas coisas que criou -"Se é que ele as criou, do que duvido." -"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,Mas os seres não cantam nada.Se cantassem seriam cantores.Os seres existem e mais nada,E por isso se chamam seres."E depois, cansado de dizer mal de Deus,O Menino Jesus adormece nos meus braçosE eu levo-o ao colo para casa.... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.Ele é o humano que é natural.Ele é o divino que sorri e que brinca.E por isso é que eu sei com toda a certezaQue ele é o Menino Jesus verdadeiro.E a criança tão humana que é divinaÉ esta minha quotidiana vida de poeta,E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.E que o meu mínimo olharMe enche de sensação,E o mais pequeno som, seja do que for,Parece falar comigo.A Criança Nova que habita onde vivoDá-me uma mão a mimE outra a tudo que existeE assim vamos os três pelo caminho que houver,Saltando e cantando e rindoE gozando o nosso segredo comumQue é saber por toda a parteQue não há mistério no mundoE que tudo vale a pena.A Criança Eterna acompanha-me sempre.A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.O meu ouvido atento alegremente a todos os sonsSão as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.Damo-nos tão bem um com o outroNa companhia de tudoQue nunca pensamos um no outro,Mas vivemos juntos e doisCom um acordo íntimoComo a mão direita e a esquerda.Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhasNo degrau da porta de casa,Graves como convém a um deus e a um poeta,E como se cada pedraFosse todo o universoE fosse por isso um grande perigo para elaDeixá-la cair no chão.Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homensE ele sorri porque tudo é incrível.Ri dos reis e dos que não são reis,E tem pena de ouvir falar das guerras,E dos comércios, e dos naviosQue ficam fumo no ar dos altos mares.Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdadeQue uma flor tem ao florescerE que anda com a luz do SolA variar os montes e os valesE a fazer doer aos olhos dos muros caiados.Depois ele adormece e eu deito-o.Levo-o ao colo para dentro de casaE deito-o, despindo-o lentamenteE como seguindo um ritual muito limpoE todo materno até ele estar nu.Ele dorme dentro da minha almaE às vezes acorda de noiteE brinca com os meus sonhos.Vira uns de pernas para o ar,Põe uns em cima dos outrosE bate palmas sozinhoSorrindo para o meu sono.... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...Quando eu morrer, filhinho,Seja eu a criança, o mais pequeno.Pega-me tu ao coloE leva-me para dentro da tua casa.Despe o meu ser cansado e humanoE deita-me na tua cama.E conta-me histórias, caso eu acorde,Para eu tornar a adormecer.E dá-me sonhos teus para eu brincarAté que nasça qualquer diaQue tu sabes qual é.... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...Esta é a história do meu Menino Jesus.Por que razão que se percebaNão há-de ser ela mais verdadeiraQue tudo quanto os filósofos pensamE tudo quanto as religiões ensinam ?Alberto Caeiro

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publicado por João Carvalho Fernandes às 23:56
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O OITAVO POEMA DE "O GUARDADOR DE REBANHOS", também conhecido como "Poema do Menino Jesus"

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro


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CONSTITUIÇÃO EUROPEIA? JÁ TEMOS, OBRIGADO!
CONSTITUIÇÃO EUROPEIA? JÁ TEMOS, OBRIGADO!por Paulo Ferreira da CunhaOs Portugueses começam a saber pelos media que nos estão a fazer uma Constituição. Trata-se da Constituição para a Europa, que alguns já admitem vir a chamar-se, mimeticamente, Estados Unidos da Europa. The Economist, dos EUA, até já nos forneceu um modelo, para o caso de nos querermos inspirar... Os autores desta constituição, reunidos na Convenção Europeia, serão pessoas muito sábias, competentes, respeitáveis e bem intencionadas (algumas sabemos que sem dúvida o são), mas em quem não votamos directamente. A tal obrigaria o respeito pelo poder constituinte originário que detemos como povos europeus. Ao contrário do que tudo indicaria, depois da Revolução Francesa, e do .Século do Povo., prescinde-se da representação directa, da convocação de uma Constituinte Europeia, precedida de referendos nacionais para saber se os Europeus querem uma Constituição voluntarista: é pois uma elite que nos está a fazer a Constituição.Aparentemente, para alguns, a razão da defesa de que a Constituição Europeia se sobreponha à Portuguesa é haver naquela mais direitos. O mesmo se disse para a Carta dos Direitos, que se pensa em integrar na constituição europeia.Diga-se que os que haverá a mais são sobretudo supérfluos, como tem sido referido por grandes especialistas: por exemplo, aquele art. 24 que "dá" às crianças o direito de conviverem com os pais. Caso para dizer: só há boas leis destas porque há maus costumes...Como se isso não fosse direito natural óbvio. Não precisamos da Carta para ter esse direito, e com ele, se os pais não quiserem, dificilmente o teremos. Mas ao lado de coisas redundantes, haverá também, pelo contrário, coisas bem perigosas, certamente: o primado de todo o direito das instituições da União sobre todo o direito nacional, deixando-nos, como País, ao nível de mera autarquia local (art. 9, n.º 1 - Convenção Europeia).E haverá, certamente, um Presidente Europeu que jamais poderemos sonhar que venha a ser português: nem ex-presidente, nem ex-primeiro ministro, nem ex-candidato a tais cargos. E pior ainda: que não deixará de transportar consigo a nacionalidade de origem... Temos visto isso já em figuras que deveriam encarnar o uno ideal europeu...E haverá ainda, muito provavelmente, um directório europeu que reduzirá Portugal, no contexto europeu, à sua ínfima expressão populacional, que nada tem a ver com a sua dignidade e importância como Nação autónoma e que nos limitará profundamente o papel activo que somos capazes de ter na União. Perderemos desde logo o Comissário europeu, com toda a certeza.O silêncio deixa-nos num engano de alma ledo e cego. Depois, virá a costumada técnica de andar a reboque dos factos internacionais, como já aconteceu, ainda não há muito, no caso do Tribunal Penal Internacional. Realmente, quando tudo estiver pronto sem a participação popular, muito legalistas, lá iremos nós rever a Constituição, mais uma vez, rebaixando-a à categoria de pouco mais que "mera folha de papel"...E tudo para quê? A União Europeia já tem uma Constituição, feita de Tratados, de sentenças, de experiência. É uma Constituição fruto da história, do tempo, uma constituição natural, flexível, adaptável, uma constituição para o futuro. A Constituição que nos estão a fazer, uma Constituição contra a pretensa "selva" do direito comunitário, sem dúvida poderá ser muito prática para algumas centenas de cidadãos interessados no assunto consultarem, num livrinho singelo, cómoda para os juristas positivistas invocarem de artigos em riste. Mas será uma constituição rígida, imposta pela cúpula, e que matará a capacidade de evolução das forças constitucionais vivas da Europa, que não são os eurocratas, mas os povos europeus. Os quais, perante tanta burocracia e tanta cristalização, poderão mesmo reagir desinteressando-se de uma Europa imposta. Defendamos a Europa, defendamos a Constituição europeia vigente, compatível e articulada com a nossa Constituição democrática. Ainda se lembram do 25 de Abril!?Paulo Ferreira da Cunha


publicado por João Carvalho Fernandes às 10:10
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CONSTITUIÇÃO EUROPEIA? JÁ TEMOS, OBRIGADO!

Os Portugueses começam a saber pelos media que nos estão a fazer uma Constituição.
Trata-se da Constituição para a Europa, que alguns já admitem vir a chamar-se, mimeticamente, Estados Unidos da Europa. The Economist, dos EUA, até já nos forneceu um modelo, para o caso de nos querermos inspirar...

Os autores desta constituição, reunidos na Convenção Europeia, serão pessoas muito sábias, competentes, respeitáveis e bem intencionadas (algumas sabemos que sem dúvida o são), mas em quem não votamos directamente. A tal obrigaria o respeito pelo poder constituinte originário que detemos como povos europeus.

Ao contrário do que tudo indicaria, depois da Revolução Francesa, e do “Século do Povo”, prescinde-se da representação directa, da convocação de uma Constituinte Europeia, precedida de referendos nacionais para saber se os Europeus querem uma Constituição voluntarista: é pois uma elite que nos está a fazer a Constituição.

Aparentemente, para alguns, a razão da defesa de que a Constituição Europeia se sobreponha à Portuguesa é haver naquela mais direitos. O mesmo se disse para a Carta dos Direitos, que se pensa em integrar na constituição europeia.

Diga-se que os que haverá a mais são sobretudo supérfluos, como tem sido referido por grandes especialistas: por exemplo, aquele art. 24 que "dá" às crianças o direito de conviverem com os pais. Caso para dizer: só há boas leis destas porque há maus costumes...Como se isso não fosse direito natural óbvio. Não precisamos da Carta para ter esse direito, e com ele, se os pais não quiserem, dificilmente o teremos.

Mas ao lado de coisas redundantes, haverá também, pelo contrário, coisas bem perigosas, certamente: o primado de todo o direito das instituições da União sobre todo o direito nacional, deixando-nos, como País, ao nível de mera autarquia local (art. 9, n.º 1 -
Convenção Europeia).

E haverá, certamente, um Presidente Europeu que jamais poderemos sonhar que venha a ser português: nem ex-presidente, nem ex-primeiro ministro, nem ex-candidato a tais cargos. E pior ainda: que não deixará de transportar consigo a nacionalidade de origem... Temos visto isso já em figuras que deveriam encarnar o uno ideal europeu...

E haverá ainda, muito provavelmente, um directório europeu que reduzirá Portugal, no contexto europeu, à sua ínfima expressão populacional, que nada tem a ver com a sua dignidade e importância como Nação autónoma e que nos limitará profundamente o papel activo que somos capazes de ter na União. Perderemos desde logo o Comissário europeu, com toda a certeza.

O silêncio deixa-nos num engano de alma ledo e cego. Depois, virá a costumada técnica de andar a reboque dos factos internacionais, como já aconteceu, ainda não há muito, no caso do Tribunal Penal Internacional. Realmente, quando tudo estiver pronto sem a participação popular, muito legalistas, lá iremos nós rever a Constituição, mais uma vez, rebaixando-a à categoria de pouco mais que "mera folha de papel"...

E tudo para quê? A União Europeia já tem uma Constituição, feita de Tratados, de sentenças, de experiência. É uma Constituição fruto da história, do tempo, uma constituição natural, flexível, adaptável, uma constituição para o futuro. A Constituição que nos estão a fazer, uma Constituição contra a pretensa "selva" do direito comunitário, sem dúvida poderá ser muito prática para algumas centenas de cidadãos interessados no assunto consultarem, num livrinho singelo, cómoda para os juristas positivistas invocarem de artigos em riste. Mas será uma constituição rígida, imposta pela cúpula, e que matará a capacidade de evolução das forças constitucionais vivas da Europa, que não são os eurocratas, mas os povos europeus. Os quais, perante tanta burocracia e tanta cristalização, poderão mesmo reagir desinteressando-se de uma Europa imposta.

Defendamos a Europa, defendamos a Constituição europeia vigente, compatível e articulada com a nossa Constituição democrática. Ainda se lembram do 25 de Abril!?


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PAULO FERREIRA DA CUNHA
A partir de hoje, irá colaborar com o Fumaças o Professor Catedrático Paulo Ferreira da Cunha, da Faculdade de Direito do Porto.Bem vindo!

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publicado por João Carvalho Fernandes às 10:04
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A partir de hoje, irá colaborar com o Fumaças o Professor Catedrático Paulo Ferreira da Cunha, da Faculdade de Direito do Porto.

Bem vindo!



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Domingo, 27 de Abril de 2003
NÃO PASSARÃO - MIGUEL TORGA
NÃO PASSARÃONão desesperes, Mãe!O último triunfo é interditoAos heróis que o não são.Lembra-te do teu grito:Não passarão!Não passarão!Só mesmo se parasse o coraçãoQue te bate no peito.Só mesmo se pudesse haver sentidoEntre o sangue vertidoE o sonho desfeito.Só mesmo se a raiz bebesse em lodoDe traição e de crime.Só mesmo se não fosse o mundo todoQue na tua tragédia se redime.Não passarão!Arde a seara, mas dum simples grãoNasce o trigal de novo.Morrem filhos e filhas da nação,Não morre um povo!Não passarão!Seja qual for a fúria da agressão,As forças que te querem jugularNão poderão passarSobre a dor infinita desse nãoQue a terra inteira ouviuE repetiu:Não passarão!Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965Nota: este poema costumava ser lido por Vera Lagoa, na manifestação que organizava no dia 1º de Dezembro

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publicado por João Carvalho Fernandes às 22:51
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NÃO PASSARÃO

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965

Nota: este poema costumava ser lido por Vera Lagoa, na manifestação que organizava no dia 1º de Dezembro


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