Quinta-feira, 27 de Novembro de 2003
IRAQUE
Iraque: Alvos dos Ataques São Cada Vez Mais Os Iraquianos Uma notícia do Público:Iraquianos Já São Os Alvos Preferenciais Pela nossa enviada SOFIA LORENA, em NasiriyahQuarta-feira, 26 de Novembro de 2003 Os ataques contra as forças anglo-americanas e os restantes contingentes estrangeiros no Iraque estão a diminuir de intensidade. A confirmação, feita ontem de manhã em Bagdad pelos dois principais responsáveis de Washington, o administrador civil, Paul Bremer, e o chefe do Comando Central, general John Abizaid, fez-se acompanhar por outra evidência: os alvos da resistência ou do terrorismo são agora, preferencialmente, os próprios iraquianos. É interessante conjugar esta notícia, com o que se pode ler no Liberté. Rapidamente se conclui que quem tem perpetrado os ataques se está perfeitamente marimbando para o povo iraquiano, tal como fez no passado, provocando 300.000 mortos. E consultem este site para verem se o Bush teve ou não razão ao atacar o Saddam. Almas mais sensíveis abstraiam-se, principalmente a página 49! A continuação da notícia do Público:A semana passada, depois de a Casa Branca ter anunciado que a Autoridade Provisória da Coligação (APC), dirigida por Bremer, só ficará no território iraquiano até 30 de Junho de 2004, começou uma contagem descrescente. Sete meses de controlo americano não parecem destinados a tornar a vida dos iraquianos mais fácil. "A situação de segurança mudou. No passado os ataques contra a coligação eram predominantes. Agora os ataques aos iraquianos são regulares", declarou Bremer, referindo-se à situação verificada nas últimas duas semanas. Para o responsável dos EUA, a explicação é simples. Como "não foram bem sucedidos em intimidar a coligação, agora tentam intimidar iraquianos inocentes". Mais de 500 quilómetros a Sul, em Nasiriyah, capital da província de Dhi Qar, a evidência agora assumida por Washington já se sente na pele por muitos dos que aqui colaboram com o poder ocupante. Sete mil funcionários públicos, sete mil alvos espalhados pela administração; no próprio Conselho de Província; em todos os tribunais; nas várias esquadras de polícias, de armas na mão em cada duas ruas das 9h00 às 17h00; de vassouras em punho árvore sim, árvore sim, entre as 5h00 e as 7h00. Todos "iraquianos inocentes", desempregados com o derrube de um regime, à procura de uma forma de sobrevivência. Origens e histórias diferentes, planos e ambições diversos, futuros diferentes marcados por um mesmo estigma, comum a um mesmo país num determinado momento. O formador de sotaque texanoSaif Kassim, 23 anos, natural de Bagdad, é desde Maio técnico de formação profissional da Facility Protection Service (FPS), a força civil que faz segurança a infra-estruturas como hospitais ou oleodutos. Escolhido pelo exército americano "porque sabia falar inglês", usou os últimos seis meses para adquirir um perfeito sotaque do Texas. Depois de receber o seu próprio treino, "duas semanas, cerca de cinco, seis horas por dia" de "ética, direitos humanos e outras coisas de que agora não me lembro, como comunicações humanas", começou a percorrer o país de metralhadora ao ombro, em busca de novos recrutas que treina como pode. Paragem da semana, Nasiriyah. "Chego a uma cidade e pergunto quem quer tentar fazer parte da força. De boca em boca e através de 'placards' dizemos, 'ei, se alguém quer juntar-se à FPF, nós estamos aqui'". Depois é fazer o seu trabalho, aquilo para que recebe 150 dólares por mês, quase sempre a tempo. De óculos "Ray-Ban" na testa, "sweat-shirt" e "jeans" de marca ocidental, não admite recuar na opção que fez há seis meses, trabalho seguro, dia-a-dia de riscos, inglês sem nódoa de americano. "Tenho medo, e sei que sou eu próprio um alvo. Sou um oficial da FPF e passei tempo a trabalhar como intérprete, mas sou iraquiano, quero trabalhar e adoro o meu país. Estou a fazer alguma coisa pelo meu país e não posso ser travado por um bando de gangs. Estou a fazer isto por todo o Iraque. Se eu não trabalhar e os outros não trabalharem, o Iraque vai perder." Entre Saif Kassim e o major Abbas Shnati, "número dois" da polícia em toda a província de Dhi Qar, existem muitas diferenças. Nomeadamente no que respeita à importância que dão a que os americanos e os restantes exércitos estrangeiros por cá continuem, bem como às recordações que o regime de Saddam Hussein deixou a cada um. "Se o exército americano saísse agora seria o desastre", assegura Kassim, depois de sublinhar que não sabe quando o seu país estará pronto para essa retirada e que está feliz pela chegada das forças americanas. O general que não festeja o fim do Ramadão"Agora o trabalho é mais difícil, claro, somos só nós, os polícias. Antes trabalhávamos com outros exércitos, com os 'fedayin', tudo era diferente", queixa-se Shnati. Mesmo estando certo de que a esquadra central da província, onde nos recebe, pode bem ser o próximo alvo dos que espalham o terror. Orgulhoso, afirma sem hesitar que "agora já não são precisos, podemos defender-nos", referindo-se às forças estrangeiras, aos carabineiros com quem convive mais de perto, na sua opinião, já muito "nervosos e intimidados". Quanto ao ordenado de 180 dólares pago pelos americanos, também não é problema, como não é problema a falta de armas para os adolescentes que envia em patrulha para as ruas da cidade. As armas, explica, pode "comprar todas no mercado negro"; o ordenado, diz sem dizer, será pago por um qualquer partido ou facção xiita. E ao contrário da médica Husdam, que está contente por poder trabalhar no Hospital Pediátrico de Nasiriyah, mas sente que se arrisca só por sair para o trabalho, o major do Sul iraquiano não tem medo de nada nem tenciona passar por casa neste fim de Ramadão, tanto é o trabalho que diz ter a ocupá-lo. Agora "tenho medo de andar na rua, qualquer pessoa pode provocar um ferimento de bala, qualquer um pode sofrê-lo também. Temos muitos problemas de segurança, mesmo dentro do hospital." "O salário aumentou, claro, mas não compensa o risco e o trabalho", sintetiza Shnati, o único habitante de Nasiriyah que ontem não saiu à rua para festejar o Eid al-Fitr, a festa de três dias que marca o fim do mês do Ramadão. Um dos poucos que não contribuiu para as centenas de disparos que pelas 18h30 já se ouviam em todas as ruas, cheias ontem como nunca nas últimas semanas. O único que ainda não teve tempo para quebrar o jejum ou desejar à mulher e aos filhos "Edak Mobarck" ou Dias Felizes.

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publicado por João Carvalho Fernandes às 00:55
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