Cavaco Silva alerta para "situação complicada" de Portugal Porto, 25 Nov (Lusa) - O ex-primeiro-ministro Cavaco Silva advertiu hoje, no Porto, que a situação económica em Portugal "é complicada" e que o país "vai continuar a empobrecer até 2006", afastando-se "cada vez mais" da Espanha e da União Europeia."Eu não invento números. A Comissão das Comunidades Europeias publicou previsões até 2006 e está lá escrito que Portugal vai continuar a empobrecer até esse ano. Já foi ultrapassado pela Grécia e pela Eslovénia e vai ser ultrapassado pela República Checa", frisou Cavaco Silva.O ex-primeiro-ministro, que participou hoje no Porto numa conferência sobre "Os Desafios da Economia Portuguesa", promovida pela Associação Nacional de Jovens Empresários, sublinhou que Portugal "está no quarto ano consecutivo de afastamento da Espanha e da União europeia e vai continuar a afastar-se nos próximos anos".Questionado pelos jornalistas acerca do discurso "optimista" do primeiro-ministro Pedro Santana Lopes e em concreto sobre o "início de uma retoma económica", Cavaco Silva considerou "natural" que em 2004 o crescimento económico seja superior ao do ano passado, porque em 2003 houve "uma recessão", mas sublinhou que "isto não resolve os problemas dos portugueses"."O problema dos portugueses só será resolvido quando nós voltarmos a uma trajectória de aproximação aos níveis de desenvolvimento da Espanha e da União Europeia. Enquanto não crescermos à volta de três, três e meio por cento ao ano, Portugal continua a afastar-se do desenvolvimento dos outros", afirmou.Para o economista, "já não há tempo para ilusões, passes de mágica e palavreado inconsequente", porque, de outra forma, Portugal corre o risco de descer para a "segunda divisão dos país da Europa em termos de desenvolvimento".Cavaco Silva, defendeu hoje na sede da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) que a "chave" para a recuperação da economia portuguesa passa pelo aumento de exportações de bens e serviços.Em 1990 as exportações representavam 33 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), isto é, cinco pontos acima da média da União Europeia, sustentou.Em 2003, continuou, esse valor desceu para os 30,8 por cento e está 3,5 pontos percentuais abaixo da média dos quinze."Não me parece possível ingressar uma tarefa de desenvolvimento estrutural ao nível da nossa vizinha Espanha, sem aumentarmos as exportações através da recuperação de quotas perdidas em sete anos (13 por cento) e da criação de novas quotas".Para atingir este objectivo, o ex-primeiro ministro defendeu que existem "três batalhas" a vencer: a do aumento da produtividade, da eficiência do Estado e da autonomia da sociedade civil em relação ao poder político.Para Cavaco Silva, os empresários devem assim "arregaçar bem as mangas" e "encarar a verdade nua e crua" da "situação complicada" em que vive a economia portuguesa.O ex-primeiro-ministro deixou ainda o conselho aos jovens empresários para não se deixarem "pressionar", porque o sucesso das empresas não está em receber "benesses ilegítimas" do Estado, ou em qualquer troca de favores com agentes políticos e "chantagens".Para o economista, os empresários devem apostar na melhoria da capacidade de gestão da empresas, na capacidade de inovação e na capacidade de penetrar nos mercados externos, pedindo ao Governo para actuar no sentido de melhorar a imagem do país.Ao nível de mercados internacionais, Cavaco Silva disse ainda acreditar que Portugal deverá centrar-se em "meia dúzia" de mercados, propondo para isso o investimento nos EUA, Japão, Rússia, China e Brasil.Questionado ainda em relação à política portuguesa e mais precisamente ao Orçamento de Estado para 2005, Cavaco Silva confessou que "não tem saudades da política partidária activa", mas, sublinhou, é "professor de Economia" e, como tal, "toda a gente deve imaginar aquilo que pensa", pois "não é muito diferente daquilo que outros economistas pensam".Recentemente o Presidente da República recebeu um grupo de "notáveis" da economia portuguesa nomeadamente Hernâni Lopes, que criticou o orçamento de Estado para 2005, considerando-o "opaco" e manifestando as suas preocupações sobre o futuro da economia portuguesa.Com a devida vénia à LUSA
QUADRO DE HONRA