Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
ÁMEN - JOSÉ RÉGIO
No circo cheio de luzHá tanto que ver!...«Senhores!»— Grita o palhaço da entrada,Todo listrado de cores —«Entrai, que não custa nada!»«À saída é que se paga»(E eu sou aquele palhaçoCom listras!, e estardalhaço,Chamando público...) Na arena,Está toda a companhia.E o público contracenaCom a arena,Como a arena com o público,Agonias de alegria...Uma bailarina dança.A bailarina que dançaJá correu França e AragançaDançando do mesmo modoCom todo o seu corpo todo.Mas sempre, de cada vez,Seu pés,Seus voláteis pés,Tiveram diverso modoDe raptar da mesma formaSeu corpo todo!Os seus movimentos de hojeSão, talvez, iguais aos de ontem,Aos olhos de quem não vêQue o gesto feito uma vezJá se não faz como fez.Ai!, a vida!E eu que ouvi que a vida é um dia!Mas acaba e principiaA cada instante do dia...(E eu também sou bailarino:Também danço!;Também não tenho descanso;Também cá vivo fingindoQue só vivo repetindo,Muito emboraSaiba como a toda a horaVario e crio,Ruo e fluo,Como um rio...)Na plateia, um homem bêbadoTem olhos vítreos do vinho.Seus olhos vítreosPegaram-se às pernas ágeisDa bailarina.Seu olhar que foi subindoA foi despindo...E ali a cara de todosAquele bêbado a goza,Gemendo, arquejando, rindo...... De tal modo,Que, súbito, o circo todoé um grande leito em festa, a receberO espasmo daquele homemQue possui essa mulher. Que mentira e que verdadeQue é a vida!(E eu sou, também, esse bêbadoQue a força de desejarTransformou em realidadeO seu desejo.Na verdade...,Sim, na verdade, não vejoPorque me não enganar...)O acrobata, que belo,Cinturado de amarelo!Que beloSer acrobata!Seu corpo é de oiro e de prata,Com fogo e gelo a correr...Pendurado do trapézio,Crucificado no ar,Causa angústia e faz prazerVer esse corpo bailar,VoarEntre a vida e a morte...E é belo ser assim forte,Ficando assim delicado.Ora esse alado eleganteQue sorri com tal desplanteTem, no entanto,Há já tanto!,Uma loucura com eleQue o impele:Quer subirAté onde puder ir;Além do que puder ir;Mais e mais!Seus belos saltos mortaisDesenham cada vez maisVoos cada vez mais trágicos.Até que ele há-de chegarÀ tristíssima vitóriaDe não ter mais que avançar.Então...,Ele há-de, ainda, sorrir.Ora verão!E há-de deixar-se cair.E há-de deixar-se cair,Do sétimo céu ao chão.Ai!, a vida!Poema da Tentação...(E eu sou aquele acrobata:Não subi nem me exibi;Não me tapei de amarelo,Nem meu corpo é de oiro e prata,Nem eu sou belo...Tenho dó de não ser belo!Mas sou aquele acrobata.)Ri, palhaço!O palhaço entrou em cena,Ri, cabriola, rebola,Pega fogo à multidão.Ri, palhaço!Corpo de borracha e aço,Rebola como uma bola,Tem dentro não sei que molaQue pincha, emperra, uiva, guincha,Zune, faz rir! Ri, palhaço!Ri..., ri de ti para os outros,Ri dos outros para ti,Ri de ti para ti... ri!,Ri dos outros para os outros...,Ri, arre!, ri, irra!, ri!Não!, que não!, que eu não lamenteQuem então, mesmo que o tente,Não deixa de se exprimirTão brutalmente. Palhaço, ri!Eu não sei ter dó de ti:Por miserável que seja,Não se tem dó do que é belo. (... Porque,Será preciso dizê-lo?,Também sou esse palhaçoFeito de borrachaE aço...) Ai!, a vida!Que trambolhões na subida,Que ascenções pela descida...!Entre os mil espectadores,Encolhido,Pequenino,— Meu menino, ino, ino... —Sim, fixo aquele menino.Seus olhos, duas estrelas,Acesinhos como velasE maioresQue os dos mais espectadores,São de Menino JesusQue dá lição aos doutores.Esses olhos fazem luzSobre todo o circo... SãoDuas varas de condão.Eis como, a luz que eles dão,Tudo, em redor, se enriqueceDe outra significação:Que linda história de fadasSe não vai desenrolando!,Com princesas encantadasDesencantadas,E jovens reis escalandoQue muralhas invencíveisAo ritmo de árias terríveis,Enquanto um príncipe excêntricoEngole espadas e chamas,Vem divertir o seu povo,Trava préliosCom dragões,Gigantes,Bruxas,Anões,—CriaçõesDum mundo novo...Ai!, a vida!Maravilhosa historieta!(E eu sou aquele menino:Sou poeta...)Mas em frente,Do outro lado da arena,Certa cara mascaradaFoca a cena:Mascarada de silêncio,De serenidade e enigma.Bailados e acrobacias,Amazonas e corcéis,Músicas, luzes, e cores,— Não me parecem que existamNaqueles ouvidos surdosE naqueles olhos foscosDe lágrimas,Sangue,Suores...Quem é que ali sabe a históriaDestes olhos esvaziados.Dessa testa de sepulcro,Daqueles lábios selados?Porque está ali essa máscara,Sozinha na multidão,Fechada no seu caixãoDe solidão e silêncio?...E ai, minha mãe e meu pai!,Todos que me quereis... aiQue eu sou também, afinal,Todo esse frio mortal...!... Porque eu sou tudo!, — afinal.E, mais do que bailarino,Clown, acrobata, menino,Bêbado ou esfinge, souA terra,O chão que eles pisam,E o pó que sobe e os envolve...Moro lá em baixo, enterrado,Muito lá em baixo!, e calado.Pairo por cima ondulando,AndoNo arEspalhado...Ai!, a vida!Que a vida não tem limites,E quem vive não tem paz,Menino, por mais que sonhes!,Por mais que desejes, bêbado!,Palhaço, por mais que grites!,Por ais que vás, acrobata!,Por mais que vás...!Ai!, a vida!... Assim, me surge tão bela,Tão digna de ser vivida,SorvidaAté se esgotar,Que eu sei que é faminto delaQue me hei-de matar. José Régio in As Encruzilhadas de Deus

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publicado por João Carvalho Fernandes às 00:00
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